Um menino belga de 13 anos, identificado como Lucas Jemeljanova, tornou-se um caso raro de recuperação de um câncer cerebral considerado um dos mais agressivos da infância. Diagnosticado aos seis anos com glioma pontino intrínseco difuso (DIPG), ele participou de um estudo clínico na França e apresentou uma resposta ao tratamento com everolimus que levou ao desaparecimento completo do tumor. O caso foi divulgado em 2024 e passou a ser estudado por pesquisadores que buscam entender por que o medicamento funcionou de maneira tão diferente em Lucas.
A doença costuma atingir crianças entre cinco e nove anos e apresenta prognóstico desfavorável. Segundo os dados citados pelos pesquisadores, cerca de 98% dos pacientes morrem em até cinco anos após o diagnóstico, enquanto a sobrevida média é de aproximadamente nove meses.
Lucas começou a apresentar problemas de saúde durante as férias de verão, quando tinha seis anos. Ele enfrentava dificuldades para caminhar e urinar, além de episódios de desmaio e sangramento nasal. Após o diagnóstico, seus pais, Cedric e Olesja, decidiram levá-lo à França para participar do estudo BIOMEDE, que investigava alternativas de tratamento para crianças com esse tipo de tumor.
No ensaio clínico, Lucas foi selecionado aleatoriamente para receber everolimus, medicamento utilizado no tratamento de determinadas doenças oncológicas. A substância atua sobre a proteína mTOR, envolvida nos processos de crescimento e multiplicação celular.
A resposta do menino chamou a atenção da equipe médica. Com o passar do tempo, os exames de imagem começaram a mostrar uma redução progressiva do tumor, até que ele deixou de ser identificado nas ressonâncias magnéticas.
“Ao longo de uma série de exames de ressonância magnética, observei o tumor desaparecer completamente”, contou à agência AFP o médico Jacques Grill, responsável pelo programa de tumores cerebrais do centro oncológico Gustave Roussy, em Paris.
O desaparecimento do câncer também trouxe uma situação inédita para os profissionais responsáveis pelo acompanhamento. Como não havia registros de uma resposta semelhante, os médicos tinham dúvidas sobre quando seria seguro interromper a medicação. “Eu não sabia quando parar, ou como, porque não havia referência no mundo”, explicou Grill.
A equipe descobriu posteriormente que Lucas já havia deixado de tomar o medicamento. Mesmo assim, os exames continuaram sem identificar sinais do tumor. Na época em que o caso foi divulgado, ele estava havia aproximadamente cinco anos sem evidências da doença.
Entre os participantes do estudo, outras sete crianças apresentaram respostas prolongadas ao tratamento, permanecendo pelo menos três anos sem recaídas após o diagnóstico. Entretanto, Lucas foi o único paciente do grupo cujo tumor desapareceu completamente.
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Uma das hipóteses investigadas pelos cientistas está relacionada às características genéticas do câncer. Segundo Grill, uma alteração rara encontrada no tumor do menino pode explicar sua sensibilidade ao medicamento. “O tumor de Lucas tinha uma mutação extremamente rara que acreditamos ter tornado as células muito mais sensíveis ao medicamento”, afirmou.
O DIPG se desenvolve na região da ponte, uma estrutura do tronco cerebral que participa do controle de funções essenciais, como respiração e regulação de processos corporais. À medida que cresce, o tumor pode comprometer movimentos, equilíbrio, deglutição e outras funções neurológicas.
Para compreender a resposta de Lucas, os pesquisadores passaram a analisar alterações genéticas presentes nos tumores dos participantes do estudo. O trabalho também envolve a produção de organoides, estruturas celulares cultivadas em laboratório que permitem observar o comportamento das células cancerígenas.
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A intenção é investigar se as características encontradas no tumor de Lucas podem ser reproduzidas experimentalmente e utilizadas no desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas. “Precisamos entender o que e por que, para ter sucesso na reprodução médica em outros pacientes, do que aconteceu naturalmente com ele”, disse Grill.
A pesquisadora Marie-Anne Debily, responsável por parte dos estudos laboratoriais, explicou o objetivo das próximas etapas: “O próximo passo será encontrar um medicamento que tenha o mesmo efeito nas células tumorais que estas alterações celulares”.
Apesar do resultado obtido com Lucas, os cientistas destacam que a resposta de um único paciente não significa que exista uma cura disponível para todas as crianças diagnosticadas com DIPG. O caso representa uma oportunidade de investigação, mas ainda será necessário compreender os mecanismos envolvidos e avaliar possíveis tratamentos em novos estudos.


