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CAFU DEFENDE NEYMAR, COBRA A SELEÇÃO E RECORDA O PENTA; VÍDEO

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Cafu relembra a liderança no pentacampeonato e afirma que o trabalho coletivo é essencial para a Seleção Brasileira voltar ao topo. (Foto: Instagram)

Há cenas que permanecem na memória de um país. Uma delas é Cafu erguendo a taça do pentacampeonato. Naquele momento, um garoto do Jardim Irene, na periferia de São Paulo, levantava também o sonho de milhões de brasileiros.

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Antes de alcançar aquele momento, ouviu muitas vezes que não era capaz. Persistiu, tentou novamente e conquistou seu espaço. Disputou três finais consecutivas de Copa do Mundo, ganhou duas e foi capitão de uma seleção da qual o Brasil ainda sente saudade.

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A braçadeira simbolizava uma liderança construída no dia a dia: ele chegava cedo, treinava mais, cobrava e cuidava dos companheiros. Cercado de estrelas, Cafu ganhou respeito pelo exemplo. Também passou pelos maiores palcos do futebol sem perder o sorriso de quem sabia quanto havia percorrido para chegar até ali.

Longe dos campos, manteve viva a memória do menino que precisava de uma oportunidade. Do sertão brasileiro a Moçambique, ajudou outras crianças a encontrarem caminhos. O sonho nascido no Jardim Irene abriu espaço para os sonhos de muitos outros meninos e meninas.

Hoje, no Que Dia, conversamos com Cafu, capitão do penta. O papo passa por vitórias, derrotas, pela responsabilidade de liderar um grupo e pelas possibilidades que o futebol pode oferecer. Também ouvimos o homem que, ao erguer uma taça, fez um país inteiro levantar os braços junto com ele.

Veja os principais momentos da entrevista.

Coluna – No ano passado, antes da Copa, você afirmava que o Brasil era favorito absoluto ao título. Após a eliminação nas oitavas de final, o que o torneio revelou que não estávamos percebendo?

Cafu – Para mim, o Brasil sempre será favorito em qualquer competição disputada pela Seleção Brasileira. Não importa o momento nem se está jogando bem ou mal: quando se trata de um torneio oficial, como a Copa do Mundo, já conseguimos mudar esse cenário várias vezes. Saímos do Brasil sem crédito e fomos campeões.

Acreditava no potencial do treinador e dos jogadores. Assim como todo o país, pensava que o Brasil poderia avançar mais. A Copa do Mundo sempre reserva surpresas em algumas partidas. Talvez o que tenha mudado aquela percepção tenha sido a forma como os meninos entraram em campo. Isso fez com que revíssemos um pouco nossa opinião.

Coluna – Depois da derrota, você escreveu que ela “dói, e muito”, mas recordou as frustrações de 1998 e 2006. A carga emocional de uma eliminação muda com o tempo ou perder uma Copa do Mundo continua doendo da mesma forma?

Cafu – A derrota de 1998 foi bem diferente daquela de 2006, porque chegamos à final em 1998. Perder realmente dói, é difícil e não é bom. Ninguém deseja perder, mas sabemos que do outro lado há um adversário preparado para nos vencer.

Ser derrotado numa final de Copa do Mundo é diferente de cair na fase de grupos, nas oitavas ou nas quartas de final. Também é diferente perder nas quartas quando se acredita que ainda dava para avançar. São sentimentos com pesos distintos.

Fomos derrotados em 1998 e vencemos em 2002. Naquele ano, entramos em campo de maneira totalmente diferente da de 1998. Mesmo tendo conquistado o título em 2002, eu não tinha certeza de que ganharíamos em 2006. Na Copa do Mundo, depois da primeira fase do mata-mata, a margem para errar precisa ser mínima.

Coluna – A derrota naquela final de 1998 ainda machuca?

Cafu – Sinceramente, não. Quatro anos depois, eu já era campeão. Em 2005, perdemos uma final da Champions League para o Liverpool e, em 2007, voltamos a ser campeões.

A derrota dói, mas não deve ser mais importante do que a vitória. Não posso dar mais valor a uma derrota do que a uma conquista, a ser campeão do mundo e pentacampeão do mundo. Vou sempre escolher a vitória.

Coluna – Desde 2002, quando você foi capitão, o Brasil não conquista outra Copa. Depois de tanto tempo, ainda faz sentido explicar esse jejum somente pelo que ocorre em campo ou há algo mais profundo na formação do futebol brasileiro?

Cafu – Já passou da hora de romper esse paradigma outra vez. Acreditávamos que isso aconteceria agora, depois de 24 anos, mas não aconteceu. Vamos esperar 28 anos para o Brasil voltar a conquistar um título. Essa sequência é ruim para a Seleção Brasileira.

Existe uma fórmula exata para explicar por que o Brasil não conquista o título há 24 anos? Não há ciência exata capaz de explicar uma partida ou uma derrota em Copa do Mundo.

Depois de 1970, até sermos campeões em 1994, tivemos seleções que o mundo inteiro considerava as melhores, mas não vencemos. Quem ganhou foi uma equipe trabalhadora, de operários, que conhecia suas limitações e conquistou o mundo.

Não há uma resposta exata, porque ninguém entra em campo com a intenção de perder. A Seleção Brasileira joga para vencer e entra como favorita. Mas pode ter faltado concentração, ou alguma jogada poderia ter sido melhor executada. Poderíamos ter superado esse recorde de 24 anos.

Coluna – Você integrou uma geração que chegou a três finais consecutivas de Copa do Mundo. O que aquela seleção tinha em termos de ambiente, liderança e personalidade que você sente falta atualmente?

Cafu – Personalidade, 100%. Liderança, 100%. Comprometimento, 100%. Dedicação, 100%.

Liderar aquela seleção era fácil, porque costumo dizer que não é o cargo que transforma alguém em líder, mas sua postura. É a postura de liderança que faz as pessoas seguirem você. Eu estava na minha terceira Copa do Mundo e na minha terceira final. Um líder precisa ser exemplo, e eu sabia que tinha de servir de referência para aqueles meninos.

Como líder, não podia aparecer 30 minutos depois do treino e ir embora 30 minutos antes. Chegava 40 minutos antes e saía 40 minutos depois para mostrar meu comprometimento, minha força de vontade e minha dedicação ao objetivo de ganhar a Copa do Mundo.

Também cabia a mim fazer com que todos fossem importantes na conquista. Eu poderia dizer facilmente: “O Brasil venceu a Copa do Mundo porque Ronaldo e Rivaldo foram os melhores”. Mas não. Rivaldo e Ronaldo foram os melhores em uma partida cada. E nos outros cinco jogos? Outros jogadores também se destacaram.

Eu precisava garantir que a responsabilidade fosse dividida igualmente. Kléberson e Gilberto Silva tinham de ter o mesmo peso de Ronaldo e Rivaldo. Cafu e Roberto Carlos, o mesmo de Roque Júnior e Lúcio. Fazia todos se sentirem iguais e relevantes naquele ambiente, não importava quem marcaria ou daria o passe.

Sabíamos que Ronaldo e Rivaldo fariam os gols. Então, jogaríamos para eles, sem vaidade. Eu não seria o artilheiro da Copa, assim como Roberto Carlos. Nosso time jogava para os dois, e eles jogavam para a equipe. Eu dizia: “A força de vocês dois está em nós, e a nossa força são vocês”.

Não havia vaidade naquela equipe. Dividíamos a responsabilidade. Para ser sincero, não vi essa união nas seleções que disputaram a Copa do Mundo depois de 2002. Não vi a divisão de responsabilidades, nem a alegria de um jogar para o outro e ficar feliz com o gol, o drible ou a conquista do companheiro.

Talvez seja justamente isso que falte à Seleção Brasileira: compromisso com o jogo coletivo, com atuar pela equipe, independentemente de quem vai se destacar.

Eu dizia: “Você não será o melhor todos os dias, mas precisa dar o seu melhor todos os dias. Esta partida será a mais importante da sua vida. Não importa o adversário. Pense que é o último jogo e a oportunidade de chegar a uma final”.

Sempre incentivava os meninos dessa forma. Foi por isso que aquela seleção conquistou o título. Não existia vaidade nem “eu fiz, eu ganhei”. Nós fizemos e nós vencemos.

Coluna – E você não encontrou isso em nenhuma das seleções que vieram depois?

Cafu – Desde 2002, não vi em nenhuma. Costumo falar para os meninos: “É exatamente isso que está faltando. Um jogar para o outro, comemorar a conquista e o gol do companheiro, abraçá-lo porque deu um passe”.

Raramente encontrei isso nas seleções mais recentes. Talvez agora, com quatro anos para trabalhar com a Seleção Brasileira, Ancelotti consiga trazer isso de volta e fazer os meninos sentirem prazer ao ver a conquista do companheiro em campo.

Coluna – Você considera que isso pode ter relação com a geração, com a fama nas redes sociais e com contratos ainda mais milionários?

Cafu – Não colocaria a culpa nos contratos milionários, porque o mundo mudou. Cada pessoa recebe conforme o que seu tempo permite. Na nossa época, também ganhávamos muito bem. Os meninos de hoje igualmente recebem muito bem. Não vou contestar isso. Cada um ganha o que merece e pelo que faz. Mesmo que esteja jogando bem ou mal, é mérito de quem está lá.

Mas não vejo o compromisso com o grupo. Quando falo disso, quero dizer jogar pela equipe e entender que você representa 220 milhões de brasileiros. “Estou representando o Brasil, não a minha marca nem apenas meu patrocinador. Represento meu pai, minha mãe, meus filhos, meus netos, meus amigos. Represento o povo brasileiro.”

Nós tínhamos essa consciência e conseguimos preservar isso naquela época. Hoje, tudo mudou. É raro as pessoas participarem de uma entrevista coletiva. Em vez disso, divulgam comunicados e falam com a imprensa pelo celular. Já não existe o mesmo contato direto. Os valores são muito diferentes dos da nossa época, mas são características de cada período.

Não atribuiria a derrota da Seleção Brasileira às redes sociais, ao fato de serem popstars ou aos contratos publicitários milionários. O que observo é o que podem fazer em campo, o que precisam fazer e o que devem deixar fora dele.

Essa era a tarefa do capitão. Eu fazia a ligação entre jogador e treinador, jogador e imprensa, treinador e torcida, jogador e torcida. Filtrava as coisas para os meninos entrarem em campo e dizia: “Esquece tudo lá fora, irmão. Aqui você vai jogar futebol. Faça o que precisa fazer aqui. Você só vai ganhar lá fora se estiver bem aqui. Invista em você aqui e depois aproveite tudo o que existe lá fora”.

Talvez esteja faltando um pouco disso, ou alguém que diga essas coisas a eles e que eles possam ouvir. Mas quem vai falar? Precisa ser alguém que realmente viveu aquilo, alguém que disputou Copas, ganhou e perdeu, quebrou recordes e conquistou títulos. Nosso time é bom. O que falta é um pouco mais de concentração.

Coluna – Quando uma seleção como a brasileira é eliminada cedo de uma Copa, quem deve assumir primeiro a responsabilidade: o treinador, os jogadores mais experientes ou as lideranças da CBF?

Cafu – Nós, que entramos em campo. A CBF não joga, o treinador não joga, o jornalista não joga, a família não joga, a torcida não joga.

Muita gente coloca a derrota na conta do treinador, que teria escalado mal, da crise na CBF, do Brasil ou da família. Não. A responsabilidade em campo é nossa.

Quando dizem: “O treinador tirou fulano, colocou sicrano e não deu certo”, estamos falando dos melhores jogadores. Qualquer um que eu tirar e qualquer um que colocar será o melhor. Não existe jogador ruim na Seleção Brasileira.

Talvez uma posição errada atrapalhe uma partida. Talvez o treinador tenha feito uma substituição ruim. Mas, mesmo que ele tenha errado, fui eu que entrei em campo. Portanto, a responsabilidade é minha.

Não importa se o treinador escala fulano, sicrano ou beltrano: cabe ao jogador atuar. O treinador pode fazer uma substituição equivocada, pode errar, mas 80% da responsabilidade é nossa, porque somos nós que jogamos.

Coluna – Na final de 1994, quando você entrou no lugar de Jorginho, eu estava com minha família e amigos vendo a partida. Depois da tensão com a saída dele, todos começaram a gritar seu nome. Você entende a dimensão daquele momento?

Cafu – Entendo, Matheus. Talvez vocês não saibam quanto treinei esperando por aquela oportunidade.

Sempre fui muito disciplinado. Sabia que Jorginho era titular absoluto. Eu treinava para treinar Jorginho. Me dedicava para obrigá-lo a treinar bem e a estar em boa forma em campo. Se Jorginho estivesse bem e ganhasse a Copa do Mundo, eu também conquistaria minha primeira Copa do Mundo.

Treinei intensamente por 32 dias, esperando uma chance de jogar uma partida da Copa. Minha oportunidade veio na final.

Lembro como se fosse hoje: Jorginho pôs a mão na coxa, Parreira virou e disse: “Cafu, Jorginho colocou a mão na coxa”. Respondi: “Eu vi, professor. Estou vendo. Faz 32 dias que treino, esperando uma oportunidade”.

Ele se surpreendeu: “Cafu, você está pronto?”. Respondi: “Professor, estou pronto há 32 dias”. Eu me preparei para disputar uma partida da Copa do Mundo, e ela foi a final.

É exatamente isso que digo nas palestras para os meninos: por que treinar só quando souber que vai jogar? Treine como se fosse entrar em campo. A Copa do Mundo passa muito rápido, e tudo pode acontecer em poucos segundos.

Desde o primeiro treino até o fim da Copa, mantive o mesmo ritmo e a mesma concentração. Se me chamassem para jogar a qualquer momento, eu estaria preparado.

Hoje, talvez eu não veja esse comprometimento. Ouço algo como: “Não vou jogar mesmo, fulano é titular absoluto”. Mas é preciso estar pronto e preparado.

Se soubessem como é bom ganhar uma Copa do Mundo, iriam querer vencer sempre. A Copa muda a trajetória de muita gente e a história do atleta. Ele passa a ser campeão do mundo. Não existe ex-campeão: é campeão para sempre.

Quando era capitão, incentivava todos a pensar assim: ganhar, ganhar, ganhar. Esteja preparado. O treinador pode pedir que você jogue hoje; vai treinar sem vontade?

Um erro de cinco minutos numa Copa do Mundo pode jogar fora o trabalho de quatro anos. É injusto. Durante quatro anos vão dizer que você não presta por causa de cinco minutos. Veja o tamanho da responsabilidade que temos. Eu compreendia isso e sempre passava essa ideia aos meninos.

Coluna – Romário disse que um dos gols mais fáceis que perdeu na carreira aconteceu depois de um passe seu naquela final de 1994. Como você recorda o lance?

Cafu – Foi na final da Copa do Mundo, contra a Itália. Lembro que a bola foi lançada na diagonal para mim. Entrei pelo meio, fazendo o facão. Quando vi aquele espaço entre o goleiro e o zagueiro, pensei: “Vou colocar ali, porque Romário certamente vai chegar”.

Cruzei e, quando vi Romário se esticando para chegar à bola, já estava comemorando. Pensei: “Ele vai chegar, ele vai chegar”. Ele chegou com a perna errada. Se tivesse usado a outra, teria feito o gol.

Ele disse recentemente: “O gol mais feito que perdi foi esse na Copa do Mundo de 1994”. Eu teria me consagrado, não é? Na minha primeira Copa, daria o passe para Romário marcar, com assistência do Cafu.

Mas o importante é estar preparado. Sempre digo a todos: estejam prontos para as oportunidades. O que não podemos fazer, quando o assunto é Seleção Brasileira, é deixar de estar preparados.

É preciso estar atento ao que acontece. Se o treinador olhar para você, responda: “Estou pronto”. É desse compromisso que falo, não importa quem vai jogar. É a Seleção Brasileira. Quando perde, todo mundo perde.

Coluna – Carlo Ancelotti decidiu iniciar uma renovação na Seleção depois da Copa. Como mudar a geração sem perder as referências no vestiário, especialmente num grupo sem experiência de vencer uma Copa?

Cafu – A mudança é natural neste momento, sem dúvida. Um ciclo termina e outro começa. Ancelotti assumiu um ciclo vicioso, com quase 12 anos do mesmo time jogando junto. Pegou a equipe com um ano pela frente, quase classificada para a Copa, sem tempo para treinar e dar um padrão de jogo.

Trabalhei cinco anos com Ancelotti. Ele é do dia a dia: treinamento, conversa cara a cara, contato, orientação, explicação.

Agora terá um novo ciclo. São quatro anos para montar uma seleção, estabelecer um padrão e criar uma identidade. É preciso fazer com que nossos jovens já saibam como será a Seleção Brasileira quando ela entrar em campo, tanto os titulares quanto os reservas.

A prioridade agora precisa ser criar uma base, formar um time e dizer: “Minha equipe vai partir daqui”. Depois, você faz os ajustes. Um jogador se machuca, outro entra; alguém recebe cartão amarelo… Mas é fundamental ter uma base.

Ele convocou alguns jogadores experientes, que disputaram outras Copas, para começar a montar a equipe. É importante ter atletas cascudos, experientes, que já sofreram em campo e disputaram uma Copa do Mundo. Líderes de verdade, capazes de tranquilizar os meninos e ajudá-los a encontrar um bom ambiente.

Ancelotti terá quatro anos para construir esse ambiente e montar a Seleção Brasileira. As eliminatórias serão muito tranquilas, com o Brasil praticamente garantido na Copa. Ele precisará treinar a equipe e criar uma identidade, para que o Brasil assimile quem são esses jogadores.

Coluna – Você conhece Ancelotti. Está confiante para esse novo ciclo?

Cafu – Estou muito esperançoso. Tenho certeza de que será um ciclo totalmente diferente, porque vai começar do zero. Ele iniciará um trabalho próprio. Os meninos vão compreender o que ele quer, e isso é muito importante.

Volto a dizer: ele assumiu um ciclo vicioso, de quase 12 anos jogando juntos. É difícil mudar isso. Ele tentou, mas não teve tempo suficiente. Agora dispõe de quatro anos para fazer o trabalho.

Coluna – No ano passado, você afirmava que Neymar seria fundamental para o Brasil. Ele foi à Copa, e agora Ancelotti anunciou o fim do ciclo de alguns veteranos. Como você avalia a trajetória de Neymar na Seleção e a responsabilidade que colocaram sobre ele por tantos anos?

Cafu – Para mim, é muito simples falar de Neymar na Seleção Brasileira. Os números impressionam e falam por si. Neymar quase alcançou todos os recordes da Seleção em jogos, números e conquistas. Infelizmente, não venceu uma Copa do Mundo, mas, fora isso, superou marcas de alguns dos maiores jogadores da história do futebol mundial.

Não há como questionar os números de Neymar pela Seleção. Ele era fundamental até se machucar. Se não tivesse se lesionado e chegasse 100% à Copa do Mundo, faria diferença, porque Neymar faz diferença.

Ele passou muitos anos sozinho. Eu disse isso e não tenho vergonha nem receio de repetir. Por 15 anos, ficou sozinho na Seleção Brasileira, responsável por tudo: cobrar escanteio, falta, pênalti e tiro de meta, discutir com o juiz, conversar com ele e bater boca com o treinador.

Não havia ninguém para protegê-lo. Quando falei que Neymar estava sozinho e não deveria ser o capitão da Seleção, era disso que tratava: precisávamos cuidar de Neymar. Não podíamos deixá-lo na linha de frente. Ele é nosso maior craque, nosso maior ídolo e nossa maior estrela.

Era o que dizíamos a Ronaldinho: “Esquece o juiz, a torcida e todo mundo. Você vai se divertir, e nós vamos proteger você”. Eu queria que fizéssemos o mesmo por Neymar. Aquele menino precisava ser protegido.

Em todas as seleções em que joguei, quando não era titular, como em 1994, os mais velhos cuidavam de mim. Quando me tornei capitão, disse: “Eles me protegeram quando cheguei à Seleção. Agora tenho de proteger esses meninos”.

Protegemos Ronaldinho, Kaká, Rivaldo e Ronaldo. Eles precisavam estar livres para se divertir. Neymar deveria pensar apenas em jogar futebol, dar chapéu, dar caneta, fazer gol de placa, marcar golaços e quebrar recordes. A nós cabia protegê-lo.

Mas ele chegou numa geração em que ninguém o protegia. Ele queria proteger os outros, mas precisávamos dele em outra função. Como fizemos com Ronaldinho, Ronaldo, Rivaldo e Kaká: “Vá se divertir, jogar e brincar. Deixe que a gente segura a bronca aqui nas pauladas”.

Não vi ninguém proteger Neymar como ele deveria ter sido protegido.

Coluna – Quando você critica a falta de comprometimento desta geração, Neymar fica fora dessa avaliação? Você percebia esse compromisso nele?

Cafu – Ele sempre teve comprometimento. Se você olhar o que Neymar fez pela Seleção Brasileira, verá que sempre se dedicou à equipe.

Às vezes, queria oferecer ainda mais, mas percebia que não dava. Em algum momento, pensava: “Caramba, o que eu faço?”. O compromisso dele era muito forte. Tanto que entrou contra a Noruega aos 20 minutos, correu atrás, tentou e fez o que podia. Os números de Neymar pela Seleção Brasileira são incontestáveis.

Coluna – Você costuma dizer que há dois tipos de líder: o temido e o respeitado. Como um jogador conquista respeito no vestiário da Seleção Brasileira, onde quase todos chegam como estrelas dos clubes?

Cafu – Pelo exemplo. Não é o cargo que faz o líder, mas o exemplo. Eu chegava cedo e saía tarde, queria saber como todos estavam: “Você está bem? Está tudo certo? Vamos treinar?”. Era o primeiro a puxar a fila, o último a deixar o vestiário, o primeiro a chegar ao almoço e o último a sair. Conversava com todo mundo.

Nunca fui mais técnico do que Ronaldo, Kaká, Ronaldinho Gaúcho ou Neymar. O que conta é o exemplo de liderança, disciplina, treinamento e comprometimento.

Se o treino era às nove, eu chegava às oito. No primeiro dia, não havia ninguém. No segundo, apareciam dois. No terceiro, três. No quarto, quatro. Esse é o exemplo de um líder respeitado.

O líder não deve ser temido, mas respeitado. As pessoas fazem as coisas por ele porque o respeitam. Elas vão com você até o fim.

Eu não dizia: “Faça isso”. Preferia falar: “Acho que, se fizermos assim, pode melhorar. O que você acha?”. É dividir a responsabilidade. “Se fizermos desse jeito, acho que vai funcionar. Tente. Se não der certo, procuramos outra maneira.”

Nunca apontava o dedo para alguém e mandava: “Faça isso”. O líder não cobra publicamente: cobra em particular e elogia diante dos outros. O erro pode acontecer com qualquer um. Errou? “Vamos em frente. Na próxima acertamos”. Depois, dizia: “Não vamos repetir esse erro, porque pode nos prejudicar”.

Sempre tive o respeito daqueles meninos. Para disputar quatro Copas do Mundo, é preciso abrir mão de muitas coisas. Abdiquei de tudo pelo meu objetivo: estar na Seleção Brasileira. Treinava, descansava e me concentrava. Essa era a minha vida.

Eu dizia a eles: “O melhor investimento de vocês é em vocês mesmos, no próprio corpo. Até onde querem chegar? Até quando pretendem jogar?”. Quer jogar até os 30? Dedique-se para chegar aos 30. Quer jogar até os 40? Terá de se dedicar em dobro. Está pronto para abrir mão de tudo isso?

Ninguém pode decidir por você. Cabe a você escolher quando parar. Se ainda se sente comprometido, dedicado e capaz de ajudar seu time, continue.

Coluna – Está faltando à Seleção Brasileira um capitão que lidere da forma que você descreve?

Cafu – Está. Marquinhos é um grande capitão e foi quem permaneceu por mais tempo na Seleção Brasileira. Talvez falte aquele passo de assumir de fato essa responsabilidade de líder.

Ele tem todas as condições de fazer isso. Está a caminho de mais uma Copa e é um jogador muito vitorioso no Paris Saint-Germain. Precisa assumir essa postura e dizer: “Sou o capitão, sou o líder e sou o exemplo”.

Chamar os meninos e falar: “A partir de agora, tudo mudou. A responsabilidade é outra. O grupo vai funcionar assim. Mister, pode contar comigo para o que der e vier. Vamos juntos nessa jornada”.

Quando alguém perde, todos perdem. O capitão é fundamental no grupo, especialmente na seleção, porque há pouco tempo para ficarem juntos.

Você trabalha com os melhores de seus clubes, estrelas e jogadores que, quando deixam a seleção e voltam aos times, são reis. De repente, chegam à Seleção Brasileira e não jogam.

É preciso mostrar que os outros estão no mesmo nível. Eu fazia todos se sentirem importantes e conscientes da responsabilidade. “Esse jogador vai atuar, mas, se você estiver pronto e for necessário, está no mesmo nível. A escolha é do treinador, e só podem jogar 11.”

Talvez falte ao capitão assumir plenamente essa responsabilidade.

Coluna – Você saiu do Jardim Irene, foi dispensado muitas vezes no início da carreira e acabou levantando a Copa do Mundo como capitão. Para um menino da periferia hoje, o caminho até o futebol profissional está mais fácil ou mais difícil?

Cafu – Na minha opinião, está bem mais fácil do que na minha época. Entre sair do Jardim Irene e conseguir meu primeiro contrato profissional, passei por nove tentativas, nove recusas e nove peneiras. Fui rejeitado nove vezes.

Naquele tempo, eu achava que ouvir tantos nãos era normal e que, para se tornar jogador de futebol, era preciso passar por aquilo.

Esta geração desiste ao primeiro não. Chora na primeira negativa. Faz um vídeo dizendo que o treinador não gosta dele. Vai às redes sociais, as pessoas se comovem e o menino consegue emprego, mas talvez não se torne um campeão. Uma criança que não aprende a lidar com frustrações pode virar um adulto frustrado.

Quando voltava para casa e dizia: “Pai, fui mandado embora”, meu pai respondia: “Você vai superar essa barreira”. E, quando acontecia de novo: “Meu filho, só você pode superar essa barreira”.

Meu pai já me preparava para o futuro e sabia que não seria fácil. Aos 12 anos, ele me ensinava a enfrentar os nãos que poderia receber mais adiante.

Por isso, quando sou derrotado ou conquisto algo, não fico deslumbrado com a vitória nem abalado com a derrota. Sei que isso pode acontecer a qualquer hora, por causa dos nãos que ouvi no começo, quando poderia ter desistido do futebol e seguido outro caminho.

Quando vivia no Jardim Irene, acordava às quatro da manhã, pegava o primeiro ônibus às cinco e depois o trem para chegar a Itaquaquecetuba e treinar às nove. Era duro, mas eu tinha certeza de que aquele era o caminho para alcançar o que alcancei: ser o único jogador da história a disputar três finais consecutivas de Copa do Mundo.

Talvez, se não tivesse enfrentado aqueles obstáculos no início, não tivesse estrutura para suportar os nãos. Perder uma Copa em 1998, seguir em frente em 2002 e voltar a ser campeão. Perder em 2006, continuar jogando e conquistar o título com o Milan.

É difícil, mas é isso que você quer. E meu sonho era ser jogador de futebol.

Talvez a maioria desses garotos não aguentasse o que enfrentamos para nos tornarmos jogadores. Hoje há scout e celular com todos os dados. Nós tínhamos de passar por uma peneira com seis times de garotos e torcer para o treinador olhar para nós. Era mais difícil. Talvez por isso déssemos tanto valor à carreira, à profissão e ao que conquistamos.

Coluna – Você costuma dizer que “oportunidade” é a palavra mais importante e que seus projetos buscavam formar cidadãos, não apenas atletas. O que o trabalho social mostrou sobre o Brasil que o futebol profissional não tinha revelado? É essa educação que recebeu do seu pai que tenta passar às crianças?

Cafu – É exatamente isso. Quero mostrar que elas vão ouvir nãos e enfrentar obstáculos e barreiras, mas só elas podem superá-los.

Como se vence a barreira do terceiro setor, no trabalho social? Dando oportunidade. Insisto muito nisso porque a maior mentira do mundo é dizer que nas favelas, periferias, comunidades e bairros só há gente ruim. A grande verdade é que falta oportunidade.

Na minha época, também faltava oportunidade. Se eu tivesse contado com uma Fundação Cafu, como criei depois de me tornar atleta, talvez não tivesse perdido tantos amigos como perdi. Talvez outras crianças pudessem ter se formado, não necessariamente como jogadores de futebol, mas como jornalistas, câmeras, assistentes, advogados e técnicos de som.

Nenhum pai ou mãe sai para trabalhar dizendo: “Meu filho, vá fazer coisa ruim na rua”. Eles dizem: “Vá para a escola, vá trabalhar, faça coisas boas”. Mas, quando o menino não encontra essa possibilidade, acaba procurando o caminho errado.

Quando criei a Fundação Cafu no Jardim Irene, projeto que mantive durante 16 anos, não queria formar jogadores de futebol. Queria formar cidadãos. Oferecíamos cursos profissionalizantes, reforço escolar, canto, dança, coral, judô, karatê, capoeira, informática, corte e costura, artesanato, inglês e cabeleireiro.

Você permite que a criança tenha escolhas. Era isso que eu desejava para as crianças do Jardim Irene: uma oportunidade dentro dessa sociedade maluca em que vivemos.

Quando uma criança recebe um caderno, um lápis e um pincel para começar a pintar, você pode perceber: “Ela tem um dom”. Aí começa a desenvolvê-lo. Mas, antes de tudo, você deu uma oportunidade.

Tive minha primeira chance de fazer um teste no São Paulo e agarrei a oportunidade. Disseram: “Você tem 30 dias para fazer o teste”. Lembrei do que meu pai dizia sobre as barreiras: “Só você pode superar”. Ele também falava: “Não posso entrar em campo por você. Posso levar você até a beira da linha. Dali para dentro, é com você”.

Coluna – Quantos anos você tinha?

Cafu – Tinha 13 anos. Já entendia que precisava vencer aquelas barreiras. Não tive muitas oportunidades. Criei os projetos sociais para mostrar que é preciso haver oportunidades nas periferias, nos bairros, nas favelas e nas comunidades.

Não se trata apenas de futebol, mas usei minha ferramenta, o esporte, para atrair essas crianças. O esporte é uma das maiores ferramentas de inclusão social que existem.

Depois, fomos ao Cafuzinhos do Sertão, um projeto com crianças que jogavam descalças num campo de terra, entre cacos de vidro e espinhos. Quando me apresentaram a iniciativa, fui jogar descalço com aqueles meninos.

Ao chegar, um deles me perguntou: “Você é de verdade? É o Cafu mesmo?”. Respondi: “Sou”. Ele quis saber: “Mas está fazendo o que aqui?”. Disse: “Vim aqui para ver você”. Ele retrucou: “Mas ninguém nunca olhou para nós”.

Eu falei: “A partir de agora vão olhar, porque estou olhando para vocês. Percorri 420 quilômetros para vir ver você, porque me preocupo. Há pessoas que se importam com vocês”.

Uma semana depois, todos já tinham tênis e cesta básica. As crianças passaram a ter mais qualidade de vida e esperança. Com um projeto social, alimentamos os sonhos e a esperança delas.

Todas sonham em ser alguém na vida. Esse sonho cresce quando damos uma oportunidade. Não adianta incentivar o sonho de um garoto sem oferecer uma chance: ele continuará sentado, sonhando pelo resto da vida.

Depois, desenvolvemos projetos em Moçambique para crianças que vivem com HIV. Elas contraíram o vírus ainda na barriga da mãe. Tomavam o coquetel na segunda-feira, por exemplo, e só conseguiam comer na quinta. Passavam três dias sem se alimentar.

Apresentaram o projeto, conversei com algumas pessoas e com pessoas de lá. Agora, essas crianças recebem três refeições por dia, todos os dias. Uma palavra simples pode mudar a vida de alguém. Foi preciso dizer: “Ajude a alimentar essas crianças. Olhe para elas e dê uma oportunidade”.

Também há o projeto dos poços. Levamos água a lugares sem água potável. Construímos 150 poços e vamos fazer mais 150, com a ajuda das pessoas que estão lá.

Disponibilizamos nossa imagem para que pudessem conseguir patrocinadores e realizar o trabalho. Uma palavra de incentivo pode transformar alguém, mas precisa vir acompanhada de oportunidade. Qualquer pessoa pode oferecer uma chance ou uma palavra de apoio. É preciso agir, em vez de esperar que os outros façam.

Coluna – Qual é o maior desafio hoje para projetos sociais voltados a crianças e adolescentes: obter recursos, manter os jovens envolvidos, oferecer educação ou criar perspectivas concretas para o futuro?

Cafu – Criar perspectivas reais para o futuro, mas isso depende de recursos. Sem verba para manter um instituto, não é possível fazer esse trabalho, porque a instituição tem custos.

Há projetos incentivados e iniciativas ligadas a leis de incentivo, entre outros. Mas o principal desafio das instituições sérias é conseguir recursos. É preciso conscientizar as pessoas sobre doações pela Lei de Incentivo ao Esporte e pelo imposto de renda. O maior desafio é a verba.

Coluna – Você diz que o futebol é uma das maiores ferramentas de inclusão social. Em um Brasil ainda tão desigual, ele continua cumprindo essa função ou deixou de ser, para muitos jovens, a porta de ascensão que foi para a sua geração?

Cafu – Continua cumprindo esse papel. Vejo isso nos eventos de que participo. O que me aproxima desses encontros e das crianças é o futebol, essa ferramenta de inclusão.

O esporte é um espaço em que você abraça alguém que nunca viu. Brinda com uma pessoa no estádio sem saber de onde ela veio. É onde o preto conversa com o branco, o rico com o pobre e o patrão com o empregado. Todos falam com todos. É também um momento em que o pai discute com o filho, e o filho pode discutir com o pai.

Temos de usar essa ferramenta para incluir. O esporte, especialmente o futebol, tira crianças da rua. Precisamos aproveitar as instituições que trabalham com esporte para incluir os jovens na sociedade e garantir que tenham direito à igualdade.

O esporte oferece disciplina, cultura, educação e socialização. Tudo o que conquistei veio graças ao esporte. Conheço quase todos os países do mundo e tive contato com diferentes idiomas e culturas.

Fico triste quando vejo coisas ruins acontecendo no esporte. Ele é um espaço de convivência. Você dá um carrinho no adversário e depois estende a mão: “Desculpa, é meu trabalho”. Hoje, não vejo as pessoas pedirem desculpas umas às outras.

Trabalhamos com as crianças para que convivam com educação, respeitem o adversário e aceitem a derrota, porque ela vai acontecer. Não teremos somente vitórias.

Mesmo depois de perder, você deve cumprimentar seu companheiro, porque naquele dia ele foi melhor do que você, mas amanhã pode ser o contrário. Hoje ele venceu seu time; amanhã, o seu pode ganhar do dele.

É hora de respeitar e reconhecer o triunfo do adversário. Sempre soube admitir quando o outro venceu. Quando perdia, dizia: “Parabéns, vocês foram melhores do que nós”.

Em 1998, enquanto muita gente inventava desculpas, eu perguntava: “E a França?”. A França foi melhor do que a Seleção Brasileira. O mérito foi dela.

Coluna – Você disse isso a eles dentro de campo?

Cafu – Disse. Mérito da França, que conseguiu vencer nosso time. “Nós somos melhores do que eles.” Talvez sejamos, mas naquele dia não fomos. Naquela partida, eles foram melhores.

Nem sempre o melhor vence. Como diz nosso glorioso Parreira, futebol não é uma ciência exata. Você não ganha todos os dias, mesmo quando é melhor. Se fosse assim, a seleção de 1982 venceria a Copa do Mundo com o pé nas costas.

Nós, brasileiros, não temos muito o hábito de parabenizar o adversário por uma conquista. “Mas, se fizer isso, e a torcida?” Preciso admitir que naquele momento o adversário foi melhor do que eu. Ponto.

Coluna – Você achou que a Noruega jogou melhor do que o Brasil naquela partida?

Cafu – Naquele jogo, sim. A Noruega será sempre melhor do que o Brasil? Não. Mas naquela partida foi. No jogo em que precisava ser, superou a Seleção Brasileira.

O Brasil acertou uma bola na trave e o goleiro fez uma defesa, mas a Noruega também criou suas chances. Foi melhor. Ponto final. Mérito do adversário. “O Brasil não jogou nada.” Porque o adversário jogou.

Precisamos recuperar o hábito de parabenizar o adversário e as pessoas por suas conquistas. Não vamos vencer sempre. Só vou cumprimentar meu amigo quando ganhar?

Foi isso que meu pai me ensinou quando eu era pequeno. Mesmo quando não dava certo, ele dizia: “Valeu, obrigado. Vamos embora. Na próxima você consegue”.

Tags: Cafu, Neymar, Seleção Brasileira, Copa do Mundo, futebol, Ancelotti, inclusão social

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