
O fim do tratamento do câncer de mama nem sempre encerra os desconfortos: muitas mulheres convivem com dores persistentes no tórax, nos ombros e na axila. Acompanhamento multidisciplinar pode ajudar na recuperação da qualidade de vida. (Foto: Instagram)
O fim do tratamento do câncer de mama é comemorado como uma vitória sobre a doença, mas, para muitas mulheres, os cuidados continuam mesmo depois da radioterapia ou da cirurgia. Uma parcela expressiva das sobreviventes ainda convive com desconfortos físicos constantes no tórax, nos ombros e na axila.
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Uma metanálise recente, que avaliou cerca de 300 mil pacientes, constatou que quase 50% das mulheres submetidas à cirurgia desenvolvem dor persistente. Uma em cada quatro sente dores de intensidade moderada a grave, o que indica que a remissão nem sempre encerra o sofrimento físico.
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A persistência desses sintomas está relacionada às mudanças provocadas pelos próprios tratamentos. Na cirurgia para retirar o tumor, nervos periféricos do peito e da axila podem ser cortados ou comprimidos, causando uma condição chamada neuralgia intercostobraquial.
Além disso, a retirada de uma quantidade maior de linfonodos está associada ao aumento dos casos de dor contínua. A radioterapia pode prejudicar a recuperação dos tecidos e provocar fibrose — endurecimento dos músculos e tecidos —, enquanto alguns medicamentos quimioterápicos danificam os nervos sensitivos.
Com o passar do tempo, o sistema nervoso também pode se modificar, e o cérebro amplifica a dor mesmo depois da cicatrização dos tecidos.
“O tumor foi tratado, mas o ‘terreno’ ficou modificado. A dor crônica pós-mastectomia é multifatorial e combina lesão de nervos periféricos, sensibilização do sistema nervoso central e inflamação”, explica Lúcio Gusmão, médico ortopedista e especialista em dor da Rede Cade.
Os sintomas geralmente se concentram na parte dianteira do tórax e nos ombros. A costocondrite, inflamação benigna da cartilagem que liga as costelas ao osso esterno, é frequente e provoca dor ao respirar ou se movimentar, o que pode gerar medo de que o tumor tenha voltado.
FATORES DE RISCO E IMPACTO EMOCIONAL
Acompanhamentos de longo prazo indicam que a incidência de dor crônica é cerca de 80% maior entre mulheres com obesidade. A gordura corporal acumulada libera substâncias inflamatórias no organismo, sensibilizando a rede de nervos.
A falta de atividade física também reduz a elasticidade e a força da musculatura do tronco, deixa as articulações dos ombros rígidas e dificulta a liberação natural de substâncias analgésicas produzidas pelo corpo durante o movimento.
As limitações físicas do dia a dia afetam a saúde mental e a autoimagem das pacientes. O linfedema — inchaço causado pelo acúmulo de líquido nos braços após a retirada dos linfonodos — pode trazer dificuldades funcionais e constrangimento social.
As dificuldades para retomar o trabalho e a rotina familiar costumam provocar ansiedade, desânimo e frustração. Nesse ciclo, o estresse emocional aumenta a percepção da dor registrada pelo cérebro.
ABORDAGENS TERAPÊUTICAS PARA A RECUPERAÇÃO DA AUTONOMIA
Exames médicos e uma investigação cuidadosa são necessários para distinguir dores decorrentes de sequelas de possíveis sinais de retorno do câncer. Depois de descartada uma lesão ativa, a recuperação requer uma abordagem multidisciplinar, com tratamentos médicos, atividade física e apoio psicológico para recuperar a qualidade de vida.
Técnicas intervencionistas atuais, como bloqueios de nervos guiados por ultrassom no tórax e aplicações de radiofrequência, ajudam a interromper o circuito da dor e proporcionam um período de alívio.
“Esses procedimentos funcionam melhor quando abrem uma ‘janela’ de alívio para a paciente voltar a se movimentar e reabilitar”, afirma Gusmão.
A fisioterapia trabalha com alongamentos progressivos do peitoral, exercícios de mobilidade e fortalecimento muscular orientado.
O suporte emocional e a compreensão de como a dor funciona são essenciais nesse processo. De acordo com Natan Boan, fisioterapeuta da Rede Cade, acolher a paciente também significa orientá-la sem minimizar suas queixas.
“Entender a própria dor reduz o medo e devolve à paciente a sensação de controle”, diz Boan. Ele ressalta que a retomada de tarefas simples do cotidiano deve ocorrer gradualmente para favorecer a recuperação da autonomia física e emocional.
Tags: câncer de mama, Saúde, Saúde feminina


